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Um bonequinho de lata

No dia do oitavo aniversário do seu filho único e querido, a mãe o presenteou com um bonequinho que ela mesma fizera, usando uma lata de leite Ninho vazia, cuja cabeça era uma lâmpada Sylvania com grandes olhos vermelhos pintados toscamente com esmalte Risqué. A roupa do bonequinho, revestindo todo seu corpo cilíndrico, era de papel crepom, simulando um calção ocre puído com grandes botões azulados, que seguravam suspensórios pretos de fita, que, por seu turno, passavam por cima de uma camisa branca de largas golas abertas. O nariz era de Durepoxi e parecia uma daquelas cenouras que, nos países onde faz muito frio, as crianças colocam em seus bonecos, feitos não de rústica lata, mas de mágica neve. Em seu esmero, a mãe recortara, numa cartolina também marrom, duas formas meio longas, meio arredondadas, que mais pareciam orelhas, mas que ela colou na base da lata e que pretendia que fossem os pés do bonequinho. Num arremate final, talvez supérfluo, elaborou e colocou uma exagerada e farfalhante gravata borboleta e uma minúscula cartola, que pareceu um tanto quanto ridícula presa no alto da cabeça de vidro do bonequinho, tanto um como outro destes dois simplórios adereços confeccionados em lustroso papel preto. No entanto, não se sabe se por cansaço, depois de tanto esforço artesanal, se por imperdoável desatenção ou por preguiça mera, não dotou o bonequinho nem de braços nem de mãos. O filho, porém, pareceu não notar este detalhe. Ou se o notou, não lhe deu a devida importância.

 

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