201702.02
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Olney São Paulo: um cineasta humanista, por Johny Guimarães

olney


O que instiga, hoje, os meios de comunicação, críticos de cinema e cineastas a discutir a abra de Olney São Paulo? A resposta a esta questão me parece fundamental para entender a trajetória fílmica desse cineasta.  Sobretudo, para aqueles que querem fazer cinema nos dias atuais. Esse interesse também revela que, a obra de Olney não envelheceu com o tempo. Talvez o que mais justifique todo este interesse esteja em Olney ter sido um cineasta que colocou o homem no centro de toda sua filmografia: ora, abordando suas lutas, dores e angustias, outra, seus costumes, valores, enfim, sua cultura. Nesse sentido, podemos dizer que se trata de um cinema humanista, marcado a ferro e fogo pelo drama humano.


Podemos pois,  afirmar  que, o fazer-se de Olney  São Paulo, como cineasta, e sua produção fílmica, desperta interesse na contemporaneidade, pela  luta na produção de seus filmes, e pela forma como os produziu.  Esse processo, não se deu, de forma harmoniosa, gratuita, mas carregada de tensões e de incríveis dificuldades.  Essas tensões emergiram por força da vontade do artista em retratar valores, crenças, hábitos, costumes, não só do sertanejo, mas da problemática humana.  Tudo isso somado ao desejo de contribuir para o enriquecimento da linguagem cinematográfica no nordeste e no Brasil. Por outro lado, essa tensões não passam ao largo da crise vivida pelo cinema nos finais dos anos 50, e da busca de um caminho que pudesse renovar o cinema brasileiro, isto é, que rompesse com a linearidade e o melodrama, que nosso cinema deixasse  de ser um pastiche, um estereotipo, fruto da submissão à linguagem fílmica norte-americana, então predominante no país.  Desta forma, podemos inferir   que Olney São Paulo foi um artista comprometido com a sua época, e com as questões de seu tempo e de seu espaço.


Em uma carta a Alex Viana, Olney revela a sua vontade de fazer cinema e a suas dificuldades: “Eu sou um jovem que tem uma inclinação invulgar pelo cinema. Porém, como neste mundo, aquilo que mais desejamos nos foge sempre dá mão, eu luto com incrível dificuldades para alcançar meus objetivos”.


Na verdade, Olney São Paulo, ao optar por fazer filmes que abordassem, discutissem as problemáticas,  os modos de vida dos sertanejos e, dos homens do seu tempo, e dialogar com eles (sem a perder a qualidade artística), viu-se diante de grandes dificuldade com a censura:  cenas de Grito da terra foram cortadas e Manhã cinzenta proibido se ser exibido no país. E por mais que declarasse fazê-los para um público popular, para que fossem exibidos em praça pública, devido a censura e a forte repressão durante a ditadura militar-civil e ao constante boicote de seus filmes pelas distribuidoras, não conseguiu atingir o público que desejava. Outrossim, seus documentários sobre o nordeste ficaram limitados a cine-clubes e festivais de cinema, impedido de serem exibidos para um grande número de pessoas, como tanto desejava seu autor.


Em seu livro revolução do Cinema Novo , Glauber Rocha refere-se a relação de Olney São Paulo com a Embrafilmes: “A Embrafilme não o ajudou, transformando-o no símbolo do censurado e reprimido.”


Quanto a sua produção fílmica sobre o sertão, podemos afirmar que, não a produziu com o objetivo de resguardar e folclorizar a cultura sertaneja. Se assim o fizesse, estaria institucionalizando, condenando à morte a espontaneidade e a dinâmica desta cultura. Desejava ver seus filmes em praças públicas e os sertanejos discutindo-os.  Só assim sentia  que seu tralho obteria sucesso e, neste sentido, alcançar um dos seus objetivos, que era trazer o cinema – linguagem urbana – para um público  sertanejo, tornando a narrativa fílmica presente do dia-a-dia de grupos rurais do sertão, não só para diverti-los, mas  também para ajudá-los a refletir sobre suas experiências de vida.


E sobre seu filme, Sinais de Chuva, Olney São Paulo declarou: “Este filme é um retorno ás minhas origens.” Essa afirmação esclarece algo assaz importante, não só para o estudo da película Sinais de Chuva, como da trajetória do cineasta. As suas origem como ele mesmo afirma, estava no mundo rural do sertão baiano, em grupos que se baseiam na oralidade, construindo seus conhecimentos e suas formas de sobrevivências a partir de relações com a natureza. Uma natureza que, integrada aos modos de vida, deixa de ser um mero dado físico, tornando-se eivada de cultura. A própria existência e renovação da oralidade representam formas de resistência destes grupos rurais sertanejos, em suas relações com a vida urbana, com seus grupos sociais, estímulos, práticas e comportamentos.


Ademais, foi no cotidiano do sertão, na sua paisagem , isto é,  nos largos espaços de intensa luminosidade quase o ano todo, e na luta pela sobrevivência do sertanejo que esse artista  foi buscar inspiração, ao cruzar a linguagem cinematográfica, coisa que o encantava profundamente, com a linguagem oral do sertão. Ao realizar Sinais de Chuva, revelou, por um lado, uma tensão ente duas linguagens com narratividades diferentes; por outro, criou uma rica representação da cultura sertaneja, não destruído dos valares que incorporou de forma efetiva no mundo urbano.


Enfim, os debates que hora ocorrem, em homenagem aos 80 anos de Olney, vem corroborar para afirmamos que a obra deste artista está viva. Nos instigando a ser críticos desse mundo, a sermos criativos e, sobretudo, acreditar nos nossos sonhos. Olney, como bem disse, Orlando Senna, era radical, vertical, experimental, marginal, ou seja, poeta.