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“Ditaduras do cinema”, organizado por Marcos Silva

ditadurasMemória cinematográfica da Ditadura (Introdução)

por Marcos Silva


A memória da ditadura brasileira em filmes se iniciou já em 1965, com O desafio, de Paulo Cesar Saraceni, e tem continuidade até nossos dias. Ela possui características históricas próprias, que tanto dizem respeito à periodização da ditadura (a etapa inicial de consolidação do regime de 1964 a 1968; o período de extremo agravamento da violência ditatorial, a partir do AI-5, de 1968, e ao menos até 1974, quando se encerra o governo Médici e se inicia a crise internacional do petróleo; e o ocaso do regime, de 1975 a 1985, quando a ditadura se desmonta sob seu controle porque não mais dava conta de enfrentar simultaneamente a crise econômica internacional e o fortalecimento de movimentos sociais e outros setores de oposição internos), à memória geral sobre a ditadura depois que ela se encerrou (a etapa inicial da Nova República, até 1989; o desgoverno Collor; a hegemonia PSDB/PFL; e a hegemonia PT/PMDB) e também à periodização própria do cinema brasileiro (sobrevivência e mudanças do Cinema Novo; nascimento do Udigrudi; ascensão e desmontagem da EMBRAFILME; Lei Rouanet e regulamentação do audiovisual; cinema da retomada; convívio entre grande mercado e projetos autorais).


Certamente, o diálogo de cada filme com essas várias articulações permite entender melhor aspectos de sua produção, recepção inicial e sobrevivência artística e documental, bem como seus posicionamentos na edificação daquela memória. É um diálogo intermediado também pelos diferentes gêneros e subtemas dos filmes. Os exemplos abordados se distribuem entre autocritica e escárnio (O desafio, Terra em transe, Fome de amor), o poder de ver e fazer (Quando o carnaval chegar, Os doces bárbaros, Bye-bye Brasil, Os saltimbancos trapalhões), denúncia e memória alternativa (Iracema, Cabra marcado para morrer, Nunca fomos tão felizes, Lamarca, O que é isso, companheiro?) e culpa mesclada a ira e martírio (Ação entre amigos, Batismo de sangue). E podem também ser classificados como dramas, comédias, musicais, tragédias e documentários. Todas essas categorias frequentemente se misturam.


A diferença entre os filmes realizados durante a ditadura (memória em andamento) e aqueles produzidos depois de seu desfecho (memória retrospectiva) é importante mas requer alguns cuidados, especialmente quando se pensa no conceito de “redemocratização”. Nenhuma democracia é “retornada” como um bem imaculado, cada democracia é construída pelos grupos humanos que por ela se interessam e abriga em seu seio, querendo ou não, a memória de seus inimigos. Se essa democracia não fizer permanentemente um trabalho crítico de memória, ela apenas reporá seu oposto usando novos disfarces.


Este livro nasceu de uma experiência acadêmica: o convênio DINTER (Doutorado Interinstitucional) USP/UFAC/CAPES, que se iniciou em 2011. A versão final procura dialogar com um público ampliado de interessados em História e Cinema. Esperamos que os textos sejam um atestado de nossa capacidade de irmos além do circuito fechado do espaço acadêmico, dialogando com um universo mais amplo de leitores, refletindo sobre aqueles e outros problemas de conhecimento histórico, sempre em busca de novos e maiores desafios.