201708.27
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“A fome” de José D’Assunção Barros

A Fome é um menino magro

de barriga inchada

de pernas finas como dois gravetos

insistentes e tímidos

que teimam em sustentar a carne

Viajada, a Fome Faminta,

mora por toda a parte

mas passa férias no Biafra

E é de lá que envia postais

sem nenhuma arte

para a National Geographic

A Fome

é uma senhora gorda

e cheia de plásticas

Tem os braços enroscados

em argolas caras

e um pescoço duro

de colares de diamantes raros

Ávida e azeda,

traída por flatulências,

essa Senhora coleciona todos os tipos de bolsas

mas prefere as de valores

A Fome é linda

quando aparece no Cinema

e essa beleza mata

enquanto ganha um oscar

Com os olhos inflados de glórias

e distribuindo autógrafos

ela, a Fome, escreve suas memórias

A Fome é farta

nas longas mesas de banquetes

onde se pede que a precedam

por aperitivos e canapés

Ela está em cada um dos cem convidados

e em cada um dos milhares de garfos

eternamente ausentes

A Fome cutuca os ricos

duas ou três vezes por dia

mas no Pobre gruda

como um carrapato

Paradoxal, a Fome também está

em uma estranha epidemia americana:

a Gordura

Ela grita de obesidade

pelos poros dos que dominaram o mundo

A Fome está no açúcar que foi queimado

e naquele que já não foi

Viscosa, ela escorre pelo ralo

para atender ao Mercado.

Lá vai ela, sorrateira,

entre caixas de tomates não comidos

sob a triste forma de leite derramado

Traiçoeira, a Fome é vingativa

Está nas prostitutas que venderam seus corpos

para terem um prato

mas é Ela, somente Ela

a Grande Prostituta

anunciada pelos profetas que morreram

em longas greves de fomes

A Fome é indecente

mas se veste bem

Como o Diabo: veste Prada

e como um duende se esconde

no caroço de uma empada

A Fome é alta costura:

Perfeita para poucos,

mas pesando sobre muitos outros,

ela rebola de bunda murcha

e finge estar na moda

Lá vai ela, a Fome

rolando pelas estradas

espiando pelas viseiras

seletiva nos seus destinos

Ela vive, quando se diz

que há muito já se acabou

(e até sorri com isto)

A Fome, covarde e cínica,

esconde-se nas estatísticas

manipuladas

e arranha rins e entranhas

através de complicados cálculos

matemáticos

A Fome está (ou estava)

nas oito pessoas que dela morreram

quando tu lias este poema

Não há como escapar da fome:

ela está na miséria e na opulência

Escapa-se, sim, através da Morte

quando ela se torna mais um número

previsto pelo Planejamento

Mas a fome não está só nos que morreram

e não apenas nos que não comeram

A Fome também está nos que foram enganados:

nos que pensam que sobreviveram