201609.05
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No dia 19 de agosto de 2016, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, João Carlos Salles, recebeu o título de Cidadão de Salvador. Leia, abaixo, trechos do discurso: “Salvador é ambígua de um modo todo seu, e muito bem marcado o seu caráter, qual seja, uma diversidade extraordinária que nem sempre é riqueza a estimular o...

No dia 19 de agosto de 2016, o Reitor da Universidade Federal da Bahia, João Carlos Salles, recebeu o título de Cidadão de Salvador. Leia, abaixo, trechos do discurso:


“Salvador é ambígua de um modo todo seu, e muito bem marcado o seu caráter, qual seja, uma diversidade extraordinária que nem sempre é riqueza a estimular o convívio ou a superar barreiras, tendo sim o claro contraponto da extrema desigualdade. Podendo ter múltiplos centros, prefere inventar periferias e mais exclusões, a ponto de nela conviverem o espaço mais público da festa com a esfera mais restrita das decisões e o terreno mais restritivo de direitos.  


Salvador é um enigma antigo, difícil mesmo de ser agarrado e compreendido. Felizmente, não posso nem devo aproximar-me desse mistério apenas recuperando minha trajetória pessoal, pois esta me permitiu ver Salvador por outro caminho, que não é apenas meu. Refiro-me, é claro, à visão da UFBA inteira, que é hoje parte fundamental de mim, exposta a todos vocês. Permitam-me, pois, mesmo rapidamente, falar desde esse lugar, de uma UFBA que recobre a cidade e a ela se cola do modo mais singular. 


A UFBA sempre foi um lugar privilegiado para ver e pensar Salvador; entretanto, tempos atrás, concentrando-se sua comunidade em bairros mais favorecidos, seu olhar privilegiado era o de constituir-se no maior projeto cultural do nosso Estado no século XX, e de ter sempre se dirigido com toda força à cultura baiana, quando esse gesto nada tinha de trivial — o que, sem dúvida, comportou e comporta ainda um feito extraordinário. É assim ínsita à UFBA a ideia de não haver Universidade autêntica sem laços com uma cultura e de ser a extensão definidora de uma instituição pública. 


Hoje, porém, nosso olhar é ainda mais privilegiado, mas não por estarmos de fora ou por alçarmos um posto elevado, e sim por a UFBA estar aninhada como nunca nos recantos da cidade, com alunos que residem em todos os seus bairros. É agora, portanto, um observatório ainda mais privilegiado de nossa cidade exatamente por procurar não ser um lugar de privilégios. E desse lugar variado e comprometido com todas as diferenças que tal multiplicidade comporta, localizo-me com vocês por outro recorte no corpo de Salvador, através do qual sentimos na pele, refletindo-se no contexto de expansão da Universidade e das dificuldades de uma inclusão efetiva, como o processo de urbanização de Salvador, à semelhança de outras grandes cidades, amplia e aprofunda desigualdades e exclusão.”


Leia aqui na íntegra: Discurso do título de cidadão soteropolitano.