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História do Capitalismo e desprestígio das Ciências Humanas, livro de Osvaldo Coggiola

Neste livro de quase 1000 páginas sobre a História do capitalismo escrito por Osvaldo Coggiola, argentino de origem, radicado no Brasil e Professor Titular do Departamento de História da USP encontram-se as melhores pesquisas de Coggiola para apreender os mecanismos centrais e fundamentais (e os secundários importantes) capazes de explicar, ao mesmo tempo, o movimento dos capitais e do trabalho, não apenas como categorias abstratas, mas como agentes históricos empíricos de carne e osso.
Logo abaixo, um pequeno artigo de Coggiola sobre as relações entre as diversas humanidades, particularmente aquelas que denominamos de Ciências Humanas (e Sociais) e as Ciências da Natureza (ou Exatas) e ainda a filosofia que no entender de Kant no século XVIII para ter utilidade social deveria se tornar uma espécie de ciência teórica de todas as ciências e de suas relações. No artigo abaixo Coggiola mostra como a crise do capitalismo termina afetando a tão propalada produtividade científica, vez que através do bordão exaustivo das especialização termina produzindo falsas prioridade pela falta de visão estratégica e de conjunto. A fragmentação do conhecimento que alimenta o círculo vicioso entre a especialização e o produtivismo quantis termina produzindo uma das manifestações da Cegueira – da qual fala Marc Ferro no seu Aveuglement, como flagelo de ausência de “futuro”.



As humanidades na encruzilhada do século 21
Sem elas um país é cego sobre seu passado, seu presente e, sobretudo, seu futuro

Osvaldo Coggiola
24 Agosto 2016

Num mundo hipertecnológico, numa economia que alguns acreditam ter entrado em “estagnação secular”, as humanidades passaram a ser vistas como um “luxo cultural” supérfluo, com redução de seu peso no ensino fundamental e perda de sua importância e de recursos no ensino superior e no financiamento da pesquisa. Na propaganda das universidades privadas ou dos programas de ensino público, a ênfase imagética é posta nas ciências exatas ou físico-naturais (incluídas as biológicas). O preconceito é tão arraigado que nem é percebido. As humanidades seriam incapazes de conclusões exatas e de prognósticos precisos, de “gerar tecnologia”, em suma, não seriam “científicas” ou mesmo “úteis”.


É esquecer que a filosofia foi o berço de toda a ciência, é isolar a ciência da sociedade que a gera e à qual deveria estar dirigida. As ciências humanas são a ponte principal, embora não a única, dessa vinculação. É esquecer, sobretudo, que as ciências sociais nasceram do esforço histórico para estender os métodos da ciência matemática da natureza aos fenômenos humanos. Nas palavras de Max Weber, elas nasceram para “deixar de lado o ingênuo otimismo que via na ciência, ou seja, na técnica cientificamente fundamentada, o caminho real para a felicidade”. Seu conjunto teórico-epistemológico reformulou as “humanidades” previamente existentes (história, geografia, filosofia) e até a análise e a produção literária. Quem duvida, por exemplo, que a psicanálise e a sociologia revolucionaram a escrita ficcional e até a poesia? E acerca da pesquisa lembremos Jean Piaget: “O que de começo parece menos útil pode ser o mais rico em consequências imprevistas, ao passo que uma delimitação inicial de finalidade prática impede que se domine o conjunto das questões, sendo suscetível de deixar escapar aquilo que é mais indispensável e mais fecundo”.


O projeto enciclopedista do Século das Luzes estava animado por um espírito de sistematização que incorporava tanto os conhecimentos oriundos das ciências físicas e naturais como os das ciências sociais. Isso foi possível graças à elaboração das grandes sínteses científicas, sem separação ou divisão das ciências em humanas, biológicas e exatas. Nos períodos anteriores havia íntima relação entre ciência e filosofia, que não se distinguiam muito bem (na Idade Média ambos os campos do saber eram identificados) ou a sua relação era óbvia (nos grandes sistemas científicos do século 17 a ciência era parte da filosofia). No século 18 encontramos a separação entre elas, pelo menos na formulação de seus problemas. Esse foi o século das especificações das várias disciplinas científicas e das especializações. Já no século 19 e sobretudo no século 20 houve uma separação radical entre ciência e filosofia e uma fragmentação crescente das ciências humanas.
O lugar das ciências humanas na universidade e na sociedade está determinado pela especificidade do seu objeto, contraposto ao tecnicismo crescente das ciências “duras”. A implosão das ciências humanas não as eliminou, mas colocou a necessidade do resgate crítico da sua unidade. O destino das humanidades não é alheio ao da ciência em geral: para Thomas S. Kuhn, a história da ciência é a das revoluções científicas, a das transições de um paradigma para outro, explicada pelo fato recorrente de que homens racionais, que são racionais em virtude de serem homens, e não por serem cientistas, encontrarem fatos que seus paradigmas científicos não conseguem explicar. O “inventário” das ciências humanas concluiu repondo a necessidade de sua recomposição unitária.


Tanto a evolução das ciências humanas quanto a das físico-naturais (em especial a biologia) tendeu a criar uma ponte entre esses domínios aparentemente opostos. Uma zona fundamental de ligação entre as ciências da natureza e as do homem é constituída pelo intercâmbio dos métodos. A identidade parcial entre sujeito e objeto do conhecimento, por outro lado, não constitui uma exclusividade das ciências humanas, pois essa mesma identidade irrompeu também nas ciências físico-naturais. Ela sublinha, por sua dificuldade própria, a centralidade das humanidades como locus de conhecimento analítico, sintético e crítico.


No entanto, as humanidades em geral tenderam a ser minimizadas no ensino fundamental para serem ameaçadas também no ensino superior. Jordi Ibáñez, defendendo as humanidades “frente a uma Administração que as despreza” (sic), afirmou em Apuntes sobre las Humanidades en Tiempo de Crisis:
Para que o mundo da política e suas meias mentiras não sujem todo, para que a luta pelo poder não nos submeta a uma extensa e sustentada pantomima baseada na prática da intoxicação, é necessário pensar em zonas sagradas, em muros de contenção, em pontos de referência nos quais a possibilidade de dizer o que as coisas são seja ainda uma experiência consistente, dotada de realidade e sentido.


Palavras mais do que válidas para nosso país. A interação das ciências naturais com as ciências humanas é uma das chaves para a abordagem abrangente dos problemas encarados pela sociedade, que ultrapassam os limites impostos pela fragmentação científica. Na USP, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), principal centro de humanidades do País, deve ser o fermento principal do seu caráter interdisciplinar, resgatando a especificidade e a unidade das ciências humanas. A faculdade superou, na década de 1990, um debate sobre sua divisão. Em anos recentes, porém, a FFLCH passou a padecer problemas estruturais que comprometeram sua finalidade, determinados pelos recursos escassos e pela combinação perversa da falta de professores com superlotação das salas de aula. Nenhuma queda ou enxugamento de recursos pode justificar essa situação. Um país sem ciências humanas em constante desenvolvimento é um país cego sobre seu passado, seu presente e, sobretudo, sobre seu futuro.


*Osvaldo COGGIOLA é Professor titular de História Contemporânea da FFLCH-USP, é chefe de seu Departamento de História. Estudou muitos anos na França e ensinou em vários países, inclusive na Índia. Tem uma capacidade de trabalho fenomenal porque além dos Congressos, Simpósios, Colóquios nacionais e internacionais, chefia de Departamento e uma prole de 5 filhos já jovens universitários, escreveu mais de 50 livros, sem que tivesse tido nenhuma bolsa de pesquisa.


Leia: HISTÓRIA DO CAPITALISMO