201604.27
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Gabriel Lopes Pontes: o artista dos mil instrumentos

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Com uma longa e multifacetada trajetória artística e intelectual, o baiano Gabriel Lopes Pontes é, hoje, um documentarista independente cuja principal proposta é o estabelecimento de um diálogo cinematográfico entre Brasil e Portugal

(Foto: Celi Santos / Divulgação)







Oriundo de uma tradicional família de artistas de Teatro da Bahia, Gabriel Lopes Pontes cedo pisou nos palcos, mais ou menos na mesma altura começando a tomar aulas de pintura com a Profa. Anna Georgina. Ao chegar o momento de decidir que faculdade cursar, preferiu a Escola de Belas Artes onde, ligando-se a nomes como Regina Costa, Michael Walker, Burity, Dílson Midlej, Márcia Abreu, Edgard Oliva, Kau Mascarenhas, Clarissa Carybé e Miguel Bittencourt, participou de diversas exposições coletivas, que agitaram o cenário cultural da segunda metade da década de 80 e da primeira da década de 90. Também realizou várias individuais e classificou-se em sete salões e bienais, tendo sido premiado três vezes. Chegou mesmo a ter sido apontado como o melhor artista plástico em atuação no Estado na década de 80 e um dos dez melhores do País.


O nefasto Plano Collor, porém, teve sobre o mercado de Arte baiano, em geral, e sobre os esforços deste grupo, em particular, o efeito devastador de um tsunami. Com isto, Gabriel voltou-se para o negócio da família, concentrando-se mais no Teatro, em detrimento das Artes Plásticas. Nesta empreitada, trabalhou intensamente como autor, diretor, ator, cenógrafo, figurinista e, sobretudo, professor de Teatro, recebendo cinco prêmios na Bahia e um em Sergipe, este último o de melhor profissional em atuação na área no Estado no ano de 1997. Acossado com o que chama de “um acúmulo de profundas decepções causadas, sem a menor necessidade, por pessoas mesquinhas e medíocres”, decidiu encerrar de uma vez por todas suas atividades artísticas, quer teatrais quer pictóricas, e dedicar-se a um sonho secreto, há muito acalentado: estudar História. Valendo-se da sua condição de portador de diploma, especializou-se em Potenciais da Imagem e logo começou a lecionar em instituições de ensino superior, a proferir palestras, a publicar artigos e a ministrar cursos de extensão. Um de seus artigos, sobre a relação História-em-Quadrinhos / História valeu-lhe um prêmio nacional em 2003. Outro, sobre o mesmo tema, foi apontado como “magnífico” na Venezuela, país onde goza do prestigiado epíteto de “o grande ensaísta da Bahia”.


Justamente quando estava feliz e realizado com a História, sem nem lembrar que a Arte existia, esta voltou à sua vida e o fez pela via do Cinema. Quase por acaso, firmou uma sólida parceria com o cineasta independente santantoniense Tau Tourinho. A dupla virou trio com o ingresso do mineiro Lucas Virgolino e o trio desencadeou o Movimento NOVOCINEMANOVO pela Renovação do Documentário Nacional, cujos cinco curtas-metragens percorreram uma interessante trajetória. Representaram a Bahia nos festivais de Brasília, Porto Velho, São Luís e Pelotas (duas vezes), dentre outros. Do ArraialCineFest, de Arraial d’Ajuda, participaram três vezes, na última destas recebendo a honra de uma mostra especial, o que se repetiu no Festival Kino-Olho, de Rio Claro / SP e numa das edições da prestigiada Jornada Internacional de Cinema da Bahia, do Prof. Guido Araújo. No exterior, foram um dos destaques do Festival CAMERAMUNDO, de Rotterdam / Holanda, o que os gabaritou a representar o Brasil no Festival do Cinema Latino-Americano da também holandesa Utrecht. E, honraria máxima, seu carro chefe, “Incarcânu A Tiortina – Quando o Vício é a Liberdade” foi convidado a representar, sozinho, o Cinema brasileiro durante as festividades pelo Sete de Setembro promovidas pela nossa embaixada em Estocolmo. Atualmente, a proposta estética e os filmes do NOVOCINEMANOVO são quesito de avaliações em universidades e objeto de estudo dos meios acadêmicos. Com a inesperada e, para ele, traumática, dissolução do Movimento, Gabriel Lopes Pontes passou dois anos entre Bahia e Lisboa para realizar seu primeiro trabalho solo, também seu primeiro longa-metragem: Fado: A Dor Quente & A Paixão Fria, lançado com sucesso no Museu do Fado da capital portuguesa. Frequentemente, atua como tradutor de textos e filmes em Espanhol, Inglês e Francês ou verte para estas línguas originais em Português, além de prestar serviços de seleção, preparação e direção de elenco para películas ficcionais.


Depois de ter estudado sax-tenor na adolescência, com o Prof. Sérgio Souto, mais tarde banjo, com o Prof. Paulo Emílio Barros, hoje tenta aprender trompete, com isto dando muito trabalho ao Prof. Juracybemol e torrando a paciência dos vizinhos.