201609.14
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Armas transgênicas para extinguir espécies


Por Silvia Ribeiro, desde México
ALAI ALATINA 
Pesquisadora do Grupo ETC
Tradução de Maria julia Gimenez(Brasildefato/SP)
Se pudesse se extinguir totalmente espécies que uma empresa ou instituição as considere daninhas, seria justificado fazê-lo? Quem decide? Como afeta as cadeias alimentares e os ecossistemas? Ainda que seja um protótipo, a arma já existe e seu desenvolvimento acontece a ritmo vertiginoso, deixando para trás a necessidade de leis e regulação de bio-segurança e critérios ecológicos, éticos, sociais e econômicos.
Para avançar com este enorme risco tecnológico, a indústria de biotecnologia tem mudado de tática. Umas poucas ONGs internacionais promovem esta nova biotecnologia como meio de “conservação da natureza”, que se pretende usar para extinguir espécies invasoras: ratos, insetos, plantas, mosquitos… A moção para adotar a biologia sintética como ferramenta de conservação foi apresentada no Congresso Mundial da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) que se reúniu no Hawaí entre os dias 1 e 10 de setembro.
Diante desta medida, 30 personalidades do âmbito científico, ambientalistas, advogados e líderes indígenas, publicaram um chamado para por freio a esta proposta e a tecnologia de “impulsores genéticos”. Entre os que assinaram – que inclui a Jane Goodall, David Suzuki, Vandana Shiva, Víctor Toledo, Alejandro Nadal – estão as presidentes da União de Científicos Comprometidos com a Sociedade, Elena Álvarez-Buylla, de México e Angelika Hilbeck, da Alemanha, da Rede Européia de Cientistas pela Responsabilidade Social e Ambiental (ENSSER).
A Dra. Hilbeck, entomóloga, sinalou que “os impulsores genéticos são uma tecnologia que propõe exterminar espécies. Ainda que para alguns profissionais, possa parecer uma ‘boa solução’, para situações complexas tem altos riscos de consequências não intencionais, que poderiam piorar o problema ao invés de resolvê-lo.” (www.synbiowatch.org/gene-drives-iucn-pr).
Os “impulsores genéticos”, ou gene drive em inglês, se baseiam numa tecnologia tão nova que ainda não existe tradução combinada. É uma construção transgênica que “engana” a natureza para que as espécies de reprodução sexual ( plantas, insetos, humanos), passem forçosamente um gene alheio a sua espécie a todas as gerações posteriores. E assim elimina os que seriam descendentes.
Utilizam a biotecnologia como via para destruir uma vantagem desenvolvida na co-evolução das espécies em milhões de anos com a reprodução sexual. Normalmente, a descendência herda 50% da informação genética de cada progenitor, o que em gerações posteriores facilitam os organismos eliminar genes que não são úteis ou lhe são alheios. Com os impulsores genéticos, a construção artificial desenhado com a tecnologia CRISPR-Cas9, contra/inserta novas sequências e elimina o bem correspondente que aporta o outro progenitor, garantindo assim que o gene introduzido estejam em toda a espécie. (Maior informação em http://tinyurl.com/hp2gph5 ).
No caso da modificação genética que reproduza descendência de um só sexo , se extingue a espécie. Isto é justamente o que propõe o projeto GBIRd (Genetic Biocontrol on Invasive Rodents), liderado pelo grupo Island Conservation, que desenvolveu roedores manipulados com impulsores genéticos para que só possam procriar ratos machos. Pretendem libertá-los no ano de 2020 em ilhas para eliminar os ratos que atacam aves. Outro projeto que se quer impor no Hawai ( do grupo Revive and Restore) são mosquitos com gene divers para extinguir-los pela mesma via, argumentando que transmitem malária aviária que afeta aves nativas. Mesmo que as aves tenham começado a desenvolver resistência a atual doença.. Isto é justamente o que propõe o projeto GBIRd (Genetic Biocontrol on Invasive Rodents), liderado pelo grupo Island Conservation, que desenvolveu roedores manipulados com impulsores genéticos para que só possam procriar ratos machos. Pretendem libertá-los no ano de 2020 em ilhas para eliminar os ratos que atacam aves. Outro projeto que se quer impor no Hawai ( do grupo Revive and Restore) são mosquitos com gene divers para extinguir-los pela mesma via, argumentando que transmitem malária aviária que afeta aves nativas. Mesmo que as aves tenham começado a desenvolver resistência a atual doença.
O enfoque é estreito e errôneo, porque não atinge as causas, condições e interações nas que se desenvolvem as supostas espécies “daninhas” e para tanto, seguirão surgindo ou serão substituídas por outras com a mesma função. No caso de GBIRd, trata-se de manipular ratos comuns, pelo que a cadeia de riscos sobre a espécie, sobre outros roedores e o papel que ocupam em diferentes ecossistemas é de uma amplitude enorme e impossível de controlar. Isso não é muito diferente no caso dos mosquitos: a eliminação de um tipo específico de mosquito, se for possível, abrirá passo a outros que se voltaram setores de doenças, quiçá muito mais difíceis de controlar.
Por esta e outras razões, 71 governos e 335 ONG que pertencem à IUCN, ao invés de apoiar o uso da biologia sintética, votaram uma emenda à proposta, estabelecendo uma moratória “de fato” dentro do IUCN ao apoio à pesquisa, experimentos de campo e uso de biodiversidade e outros aspectos. (http://tinyurl.com/hht8byo ).
Mas, o uso de impulsores genéticos não é pensado como perspectivas conservacionistas. As empresas transacionais do agronegócio foram desenvolvendo biologia sintética para eliminar enfermidades, reverter a resistência de ervas invasoras ao agrotóxico no uso de sementes transgênicas, para aumentar seu uso. Neste sentido, o protagonismo dados pelos meios de comunicação como instrumento de conservação ou de prevenção de enfermidades, é também uma manipulação midiática pra evitar que se associem com o amplo rechaço global que existe aos cultivos transgênicos. Já que eles se concentram hoje nos Estados Unidos, Brasil, Argentina, México e Austrália.
É urgente ampliar o debate sobre o uso, riscos e impactos da biologia sintética e especialmente dos impulsores genéticos, sobre os que se devem estabelecer numa estrita moratória internacional que impeça qualquer liberação.
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